A edição de 2015 do Discografia Pop Rock Gaúcho aconteceu nos dias 19, 20 e 21 de junho de 2015.

Antes, o evento se chamava Discografia Rock Gaúcho, mas a mudança do nome foi feita para que mais bandas pudessem fazer parte. Assim, tem Graforréia Xilarmônica, mas também tem Chimarruts.

Abaixo, um relato dos três dias de shows.

DIA 1

Fui para o Opinião pouco depois das 18h30min. Não me liguei que era sexta-feira, horário de pico no trânsito, e demorei para conseguir um táxi. Quando cheguei no bar, percebi que não havia praticamente ninguém lá, mesmo com o horário do show marcado para as 19h. Então às 19h em ponto, KG Lisboa, apresentador do Discografia Pop Rock Gaúcho, subiu ao palco e pediu paciência para aquelas poucas pessoas que já haviam chegado – argumentando que era sexta-feira, trânsito caótico, pessoal saindo do trabalho, então o primeiro show começaria às 19h30min. Ok, aguardemos.

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Fiquei bem em frente ao palco, mas na parte de cima do bar – achei que lá era um lugar bom pra assistir aos shows e onde o som também acaba sendo melhor. Ainda, de quebra, poderia observar o que acontecia na parte de baixo da pista.

Meu relógio marcava 19h31min quando o Da Guedes entrou no palco. Ainda não havia muitas pessoas, mas aparentemente não podiam atrasar mais. Público um pouco tímido no começo, se soltando no decorrer do “Morro seco mas não me entrego”, disco de 2002, que a banda escolheu para tocar na íntegra.

Intro, Ira Santa, Delegacia, Passe Livre… todas com imagens alternando no telão gigante que foi colocado no fundo do palco. Aos poucos, a fumaça dos baseados acendidos na pista foi tomando conta do ambiente. Nenhum segurança conseguia dar conta de jogar tanto beck no chão e pisar (e os usuários não pareciam estar preocupados com isso). As letras sobre problemas sociais, bairros e quebradas de Porto Alegre são dominantes.

O público, composto essencialmente por homens de bonés aba reta e com as mãos pra cima sabia cantar todas as letras – ou pelo menos as partes mais importantes das músicas. Dr. Destino, faixa 5 do disco, foi entoada num coro uníssono.

Os rappers do Da Guedes se comunicaram com o público o tempo todo. Fizeram agradecimentos, falaram dos problemas da cidade (e do país), comentaram que, mesmo o disco sendo de 2002, há letras ali que ainda hoje são atuais.

Bem nessa, nona faixa do disco, foi uma das mais animadas da noite. A ideia: rap; o logo: hip hop.

Durante todo o tempo, participações entravam no palco. Foram tantas que eu nem consegui anotar os nomes, mas todos pareciam muito familiarizados entre si.

Depois das 15 faixas do disco, mais  a música Não para, o show terminou e logo o palco começou a ser montado para a Comunidade Nin-Jitsu, segunda banda da noite. Como o Da Guedes se apresenta só com um DJ, quase nada deles precisou ser desmontado.

DSC01488Foi uma meia hora até que o palco ficasse pronto e a Comunidade Nin-Jitsu iniciasse seu show. Eles tocaram o Maicou Douglas Syndrome, disco de 2001 com vários hits da banda. Isso fez com que o show fosse explosivo o tempo todo. Muitas rodas foram abertas em várias ocasiões; muitos guris pulando na pista e praticamente ninguém “sem erva” (principalmente na música Ah! Eu to sem erva). Inclusive, durante Ah! Eu to sem erva, Mano Changes comentou que era muito estranho tocar essa música logo no início do show, já que há anos eles encerram os shows com ela. Mas como o disco era pra ser tocado como está no CD, comentou que eles obedeceram a ordem. Durante essa e em outras várias ocasiões Mano Changes parou o show para falar com o público. Falou do Chorão, da falta que o vocalista do Charlie Brown Jr faz, falou do groove do B Negão. Agradeceu inúmeras vezes a oportunidade de tocar em um evento cultural deste tipo e salientou a importância dos ingressos gratuitos, parabenizando a todos os envolvidos.

Em Patife, Mano Changes chamou ao palco Erick Endres, filho do Fredi (Chernobyl) Endres e sobrinho do Fernando Endres, guitarrista e baixista da CNJ, respectivamente. O vocalista contou que Erick era uma criança quando disse para o pai dele: “olha, pai, por que você não faz um riff assim?”

O show seguiu com Não aguento mais, Amazônia X Colômbia, Chutá o balde etc. No telão, mulheres rebolando e imagem da logo da banda. Ao meu lado, um guri canta Arrastão do amor inteira, enquanto mexe no seu facebook. Na minha frente, alguns outros gravam áudios e compartilham no whatsapp – é impossível não ver as luzes das telas enormes de seus smartphones.

Mano Changes, entre uma música e outra, contou que o primeiro show da banda foi com o Da Guedes, em 1995, no Barbatana Rock, um bar de Porto Alegre. Disse que, por conta disso, o show dessa noite era muito emocionante. Fez agradecimentos para músicos da época, falou do Bafo de Bira, estúdio que o Rafael Malenotti tinha em idos da década de 1990, onde todas essas bandas ensaiavam, bebiam etc.

Além das 12 faixas do Maicou Douglas Syndrome, a banda tocou mais Detetive e Merda de Bar. Durante Detetive, Índio, o detetive do clipe, subiu ao palco. Do público, muitos gritos direcionados ao Índio, que se diverte dançando ao lado de Fernando Endres.

O show acabou pouco depois das 22h, peguei um hambúrguer num bar ali da frente e fui pra casa.

DIA 2

No segundo dia, quem tocou foram as bandas Graforréia Xilarmônica e Ultramen.  A Graforréia com o Chapinhas de Ouro, de 1998, e a Ultramen  com o Olelê, disco de 2000.

Cheguei no bar às 18h30min, pensando que encontraria um público maior do que na noite anterior, mas não. Novamente, o show precisou ser atrasado. KG Lisboa, apresentador dessa edição, sobe ao palco e comunica sobre as bandas do dia e fala do dia seguinte, com Esteban e Chimarruts. Explica que os discos serão tocados na íntegra e na ordem, e enuncia todos os patrocinadores do evento.

DSC01505Não demorou tanto até a Graforréia subir ao palco para iniciar o show. Frank Jorge fala apenas algumas vezes entre as músicas. Em uma dessas vezes, agradece o convite para tocar no Discografia e diz que está muito contente por fazer parte disso.

No segundo dia, o público era relativamente mais adulto e também com mais mulheres presentes. Duas mulheres, ao meu lado esquerdo, fazem uma montanha de casacos no chão pouco antes de pularem e cantarem todas – todas! – as músicas da Graforréia Xilarmônica. Elas cantam e sorriem para o palco. São mais velhas do que eu, e com mais energia do que eu, também.

Quando terminou o disco, Frank Jorge disse: “então ta, esse foi o Chapinhas de Ouro, mas a gente tem mais umas músicas pra tocar pra vocês”. Além das 12 faixas do Chapinhas de Ouro, a Graforréia Xilarmônica tocou Literatura Brasileira, Bagaceiro chinelão, Minha picardia, Patê, Twist, Amigo punk, Nunca diga e Rancho. Amigo punk foi pedida durante todo o show, inclusive enquanto a banda ainda tocava o Chapinhas de Ouro. Perto de mim, dois guris dizem que “bem capaz que a banda vai embora sem tocar Amigo Punk”, entoada como um hino quando finalmente foi tocada.

Terminou Rancho e a banda se despediu do público.

Nessa hora, o público meio que foi trocando de lugar. Alguns que estavam no andar de baixo, na pista, subiram, e outros desceram. Eu, que tinha ficado as 4 primeiras músicas quase em frente ao palco, subi para filmar alguma música, onde o som não estaria tão estourado, e fiquei por ali, em frente à mesa dos técnicos de som, durante quase o resto da noite.

Parte dos equipamentos da Ultramen já estavam no palco durante o show da Graforréia Xilarmônica; o resto foi montado durante o intervalo.

KG Lisboa voltou para apresentar a segunda atração da noite: Ultramen. A banda iniciou com Ultramanos, faixa de abertura do disco, e seguiu a ordem do Olelê. Público muito participativo, cantando, balançando as mãos. As mulheres, mais presentes na segunda noite, saíram da pista e foram pra parte mais alta do bar. Na pista, em vários momentos as rodas tomaram conta. Poucas câmeras tirando fotos, quase nenhuma luz de celular se via ali de onde eu estava.

Tonho Crocco conversou com a plateia várias vezes. Falou dos ensaios para o show, fez a mea culpa dizendo que ele era o que mais tinha errado, que não lembrava as letras, e durante Dívida, fez todos rirem ao contar que sempre aparece alguém na rua pra gritar “e aí, e aquela dívida?” – ah, vá pra puta que pariu com a porra da dívida, não aguento mais essa música! – brincou o vocalista.

Em Peleia, Malásia, que já havia cantado algumas músicas, sai de novo da percussão, pega o microfone e pula no meio da galera. Ao redor dele, todos pulam e cantam muito.

Quando A estrada perdida dub, última faixa do disco, termina, o público logo começa a gritar “mais um! mais um!”. A banda volta com Hip-hop beatbox com vocal e James Brown – com Pancho Santos na bateria, Tubarãozinho (a qual Tonho Crocco dedicou a Eduardo Cunha) e Grama verde.

O show terminou perto das 22h30min, passei no mesmo boteco, peguei um hambúrguer (dessa vez, de calabresa) e fui pra casa.

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DIA 3

Domingo chuvoso. Como nas duas noites anteriores o público demorava a chegar, fui um pouco mais tarde. Cheguei no Opinião às 18h50min e ainda fiquei na portaria conversando com a Aline, assessora da Olelê, que produziu o evento, e quando entrei, às 19h em ponto, KG Lisboa já estava no palco e o bar estava lotado por fãs do Esteban Tavares. Quando as luzes se apagaram, muitos gritos. Quando o músico entrou no palco, mais gritos ainda. Aline, ao meu lado, comentou que é sempre assim. Eu, que esperava um público até mais feminino, errei feio. Muitos guris cantando e chorando. Consegui um furo entre alguns grupos e fiquei ali para tentar filmar alguma música, e ao meu lado um guri de uns 16 anos, moletom, boné de aba reta e piercing no nariz cantava com a cabeça para cima, como que deixando que a música entrasse pela sua alma. Soa exagero, mas era exatamente o que me parecia. Ao lado dele, uma guria chorava. Quando terminou a música, que eu não lembro qual era, uma amiga virou pra ela: “tu ta chorando?!” e ela respondeu que estava muito emocionada.

DSC01615Como ali onde eu estava não era muito confortável, resolvi circular pelo bar à procura de um lugar melhor. Desci e tinha menos gente nas laterais da pista. Consegui me escorar no balcão do bar, e ali fiquei durante todo o show. Na parte de baixo, eu conseguia ver o rosto das pessoas – coisa que nas noites anteriores, por ficar mais para o fundo do bar, não era possível. Dali, vi muito mais gurias chorando. Muitas gesticulavam incessantemente para Esteban que, no palco, pouco tirava os olhos do teclado. Ele conversou pouco com o público e, mesmo assim, em uma das vezes em que agradeceu todo mundo por ter saído de casa para vê-lo, um guri ao meu lado disse para o amigo: “nossa, ele sempre fala demais”.

Esteban disse que esse era o último show da turnê do disco ¡Adiós, Esteban!, lançado em 2012, e que esperava todos ali no lançamento do seu novo disco, marcado para julho. Sempre que falava, era respondido com muitos gritos.

Quando o ¡Adiós, Esteban! terminou, o músico anunciou que ia tocar mais 2 músicas: ¡Tchau, radar!, composta em parceria com Humberto Gessinger, e Cigarros e capitais. Ao se despedir, convidou novamente todos para o lançamento do seu novo disco e agradeceu pela oportunidade de tocar no evento.

No momento da desmontagem/montagem de palco, aquele esquema dos dias anteriores – da troca de público, também. Alguns ficam, muitos se movimentam. O pessoal do dreadlock no cabelo começa a aparecer. O segundo show da noite e último do Discografia Pop Rock Gaúcho é o do Chimarruts, banda de reggae que está completando 15 anos – motivo para muitas homenagens antes de iniciar o show.

Enquanto o palco estava sendo montado, um telão desceu e mostrou um vídeo comemorativo com depoimentos de fãs, amigos e familiares da banda. Nele, todos os tipos de parabéns – seja cantando, contando histórias da banda e muitos outros exemplos. Atrás de mim, algumas pessoas impacientes diziam que estavam ali pra ver a banda, e não aquele vídeo.

Durante o show do Chimarruts, continuei na pista, mas um pouco mais para o fundo. Durante as músicas do disco homônimo de 2002, vários comentários dos fãs surgiam ao meu redor. Um deles, que me chamou muito a atenção, foi de duas gurias comentando que “Tati estava abraçada a Jah”. – olha, ela ta incorporando! – disse uma delas.

E foi nesse clima de reggae, Jah, sol e praia que o show seguiu. Iemanjá, Chapéu de Palha e Pra ela foram alguns dos momentos em que o público cantou mais alto. Aquela vibe do reggae pairava no ar o tempo todo – impossível ser diferente. Aline, antes dos shows da noite, havia comentado que o público de reggae é bem fiel, que eles fazem com que o show seja uma celebração. De fato, eu sentia que eu estava quase que numa missa.

Quando a última faixa, O morro, foi tocada, saí da pista e decidi ir para o andar de cima, na parte mais alta do bar, onde ficam os iluminadores. Lá, para a minha surpresa, uma galera animadíssima dançava. Alguns sozinhos, no clima “abraçados a Jah”; outros em casal. Outros, ainda, aproveitavam os espaços vazios para namorar. Um sofá, na lateral direita, estava todo ocupado. Algumas pessoas ali assistiam ao show pela televisão (todos os shows estavam sendo filmados), outras só ouviam a música vinda do palco, cantando junto.

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Rolaram muitas participações e muitas músicas de outros discos. Versos simples, somente com Tati Portela acompanhada de uma guitarra, foi cantada em coro pela plateia.

Eu precisei ir embora antes de o show terminar. Não tive tempo de ir no boteco pegar o hambúrguer, pois estava atrasada, e fui pra casa.

Vídeos do Discografia Pop Rock Gaúcho:

Da Guedes – Bem Nessa

Comunidade Nin-Jitsu – Cowboy

Graforréia Xilarmônica – Eu

Ultramen – Ultramanos

Esteban – Sophia

Chimarruts – Iemanjá

Outras fotos na fanpage do meu blog.