No sábado, dia 21 de março, o Opinião recebeu o show da Comunidade Nin-Jitsu com a Ultramen. As bandas já haviam se unido para encerrar a primeira noite do Planeta Atlântida, em fevereiro deste ano, e parece que deu tão certo que eles resolveram repetir. Ultramen, formada em 1991 e com o primeiro disco lançado somente em 1998; Comunidade Nin-Jitsu, formada em 1994 e com o primeiro disco lançado também em 1998.

A Ultramen, pelas palavras de Luciano Malásia, percussionista, “é de uma geração influenciada pela MTV e pelo Galpão Crioulo”. Eles circulam, entre outros estilos, pelo hip hop, heavy metal e nativismo. Já a Comunidade Nin-Jitsu é do miami-bass, funk carioca e hard core. Ambas foram formadas em Porto Alegre durante uma grande movimentação na cena musical da cidade, a qual originou, além delas, bandas como, por exemplo, Tequila Baby, Acústicos e Valvulados, e mais para o final dos anos 90, Bidê ou Balde e Cachorro Grande.

Por serem bandas com estilos diferentes, mas parecidas (as duas usam vocabulário interno; nenhuma se encaixa no estereótipo do “rock gaúcho”) e, além disso, frutos da mesma cena, achei que seria interessante ver a junção destes elementos no palco.

DSC01316Cheguei ao bar Opinião às 20h50min. O show estava marcado para as 21h, e às 21h05min as bandas estavam subindo ao palco. A primeira música, Merda de bar, foi tocada pelas duas bandas juntas. Todos os integrantes no palco, fazendo uma festa. O público respondeu na mesma excitação: todos pulando, muito interessados na música. O público me pareceu muito interessado durante todo o show – poucas fotos, poucas pessoas de costas para o palco (fazendo selfies), vídeos em momentos específicos. Eu, que geralmente encontro o lugar mais confortável do bar para assistir ao show, por opção metodológica, resolvi ficar bem no meio da plateia, em frente ao palco.

Me movimentei entre todos os lugares e pude notar uma diversão realmente contagiante – fui tomada pelo coletivo – havia um efeito de multidão muito forte naquela noite. Comandado por Mano Changes, Tonho Crocco, e em diversas vezes por Malásia e Marcito, percussionistas da Ultramen, o show foi intenso e somente com resposta positiva. Falando em Malásia, este me lembrou muito Neville Staple, do The Specials: pulou, correu, dançou, animou todo mundo e dominou o microfone. Sempre que os músicos intimavam o público para pular, eu não vi ninguém parado. Por vezes, com as duas bandas completas no palco (inclusive os bateristas Gibão Bertolucci e Zé Darcy), em outras, com os músicos se revezando, mas sempre levando a pista do bar abaixo. E foi assim em Tubarãozinho (com Fredi e Nando tocando junto com a Ultramen), Cowboy, Não aguento mais (com Boff e percussão – o que nem sempre ia até o final, por vários motivos, como sair cantar e tomar cerveja); Bico de luz, Dívida (com Mano Changes cantando junto), Toda molhada (também com Boff mais percussão).

Depois de Toda molhada, o show seguiu com Arrastão do amor. Neste momento, Edu K chega ao meu lado e me pergunta o motivo de eu estar com aquela cara fechada (“de bunda”, nas palavras dele). Respondi que eu estava chocada com Erick Endres, guitarrista e filho do Fredi Endres, da Comunidade Nin-Jitsu. Eu já tinha visto alguns vídeos dele tocando, o clipe de Loneliness and Past, mas nada se compara à performance de palco daquele guri de 17 anos. É brutal. Ele se sobressaiu várias vezes, deixando, inclusive, o próprio pai no chinelo (será preciso explicar o que é “chinelo”?). Ou seja, quando eram as músicas da Comunidade Nin-Jitsu, as guitarras estavam altas e pesadas. Na hora da Ultramen, baixava um pouco e o groove dos baixos é que tomava conta. Erick me lembrou muito o John Frusciante da turnê By The Way, do Red Hot Chili Peppers, que passou por Porto Alegre em 2002 (que teve abertura da Comunidade Nin-Jitsu). Talvez o cabelo, a camisa, os trejeitos, o jeito de tocar; só sei que me lembrou muito.

Logo após Arrastão do amor, veio Compromisso, Erga suas mãos, Detetive (com o lendário Índio, o “detetive” do clipe lançado em 1996 – e que ganhou o VMB de melhor democlip em 1997) e algum cara da produção veio chamar o Edu, que ainda estava ali comigo. Imaginei o que poderia ser: subir cantar Popozuda. Acertei. Quando Edu saiu dali, resolvi ir mais para o centro da pista, e logo o vocalista do Defalla estava sendo chamado por Mano Changes. Edu falou algumas coisas antes de cantar (algo que não lembro direito, mas tinha a ver com ~pererecudas~), e, nisso, uma guria que estava ao meu lado, começou a reclamar: “tá, para de falar e canta de uma vez!”. Ela estava mesmo brava. Xingou mais um pouco, mas logo o riff de Popozuda apareceu e ela se acalmou (e dançou). Edu cantou, dançou, rebolou, abraçou os músicos, pulou, fez insinuações sexuais, usou o microfone como objeto fálico. Ao final de Popozuda, ele deixou o palco e logo a Ultramen entrou com General, e em seguida as duas bandas se uniram no palco e ninguém mais saiu. Foi a vez de Hip Hop Beatbox com vocal e James Brown, Tudo que ela gosta de escutar (do Charlie Brown Jr) e Ah, eu to sem erva. Neste momento, um guri ao meu lado direito fazia exatamente o que Mano Changes fazia no palco. Usava, também, o mesmo tipo de boné e gesticulava quase que sincronizado com o vocalista. Ele cantava alto, muito alto, para o Mano Changes, que não ouviu, pois havia centenas de pessoas cantando com o mesmo fervor.

DSC01332

No auge, veio Peleia, a última música da noite. Antes, uma introdução com Não podemo se entregá pros home, de Cenair Maicá, e Negro da gaita, de César Passarinho. E este foi o momento mais gaudério do show. Inclusive, a iluminação de palco contava com as cores da bandeira do estado. Reverências foram feitas, mas, em nenhum momento houve o grito de “ah, eu sou gaúcho!”, algo que vejo acontecer muito. Pensando nisso, o grito bairrista acontece, na maioria das vezes em que estive presente, com bandas que não são do Rio Grande do Sul. Por exemplo, o último show (de artista de outro estado) a que eu assisti foi o da Pitty, e neste o “ah, eu sou gaúcho!” apareceu. Nesta ocasião, quando Pitty anunciou o novo baixista, Guilherme Almeida, gaúcho. Em outra ocasião, também em show da Pitty, uns dois anos antes, quando Hique Gomez apareceu no palco. Será uma necessidade de afirmar essa identidade quando o artista não é daqui, mostrando o orgulho que temos da nossa terra? Bom, pensemos nisto em outra ocasião.

 

Peleia. Última música. As duas bandas no palco, todos cantando e tocando. Público acompanhando, se divertindo. Logo, Malásia pula para a pista. O público pira. Eu perco este momento, pois um casal discutindo em minha frente tirou minha atenção. Eles são os únicos alheios ao momento. Após Malásia, PX, da Revolução RS, que fez uma participação nessa música, pula também. Em seguida, Tonho Crocco. Consigo filmar um pouco, e logo eles voltam para o palco. Todo mundo continua muito empolgado – as bandas pulam no palco, o público pula na pista.

O bis foi com Cosmic Slop, do Funkadelic. O público começa a pedir “mais um!”, mas o show, após 18 músicas, termina numa catarse coletiva.

Clicando aqui, você pode ver o vídeo de Peleia. Faltou o começo da música, mas acho que dá pra sentir a energia do local.

Ah, o show foi todo filmado pela TVE. Então é provável que em breve apareça em algum programa, um especial no “Palcos da Vida”, algo do tipo.

DSC_0587